Você não é seu cérebro: Como a psicanálise lida com o sofrimento psíquico

O que não falta na atualidade são técnicas, métodos e receitas para lidar com o sofrimento, sendo que o modelo hegemônico de tratamento se baseia na medicação psiquiátrica e nas terapias comportamentais, no entanto, cada vez mais as pessoas se deparam coma ausência de sentido dessas terapias e, muitas vezes a piora dos quadros clínicos. O que a Psicanálise teria a propor?

 

Diante de qualquer indício de sofrimento psíquico nossa primeira reação é fazer a pesquisa básica no Google, assim como fazemos para muitas questões que nos surgem no dia-a-dia, seja ela como trocar uma torneira ou qual o melhor tratamento para qualquer questão em saúde. Mas ao fazer isso nos casos de sofrimento psíquico somos jogados para uma lógica muito bem definida e hegemônica (predominante em nossa sociedade) que entende que o problema está localizado em nosso cérebro e descarta de forma brutal toda história de vida e marcas profundas da experiência como sujeitos.

A trajetória para que essa concepção cerebral pudesse ser estabelecida remete ao século passado e a tentativa da psiquiatria em se afirmar como ramo da medicina assim como os outros: para a cardiologia se estuda os problemas do coração, para a ortopedia, as questões dos ossos, ligamentos e músculos, e assim por diante. A questão se estabelece: e para as dores da alma?

O sofrimento psíquico não tem um órgão definido para se fazer uma intervenção, mas a medicina precisava dessa concretude para ter credibilidade. Na década de 1950 os primeiros remédios psiquiátricos são descobertos por acaso, como efeito colateral de substâncias usadas para outros fins, mas se tinha muito claro que não tratavam a causa, sempre desconhecida. Para medicamentos que dopavam ou que animavam a indústria farmacêutica pode aprimorar seu marketing até chegar à formulação dos “hormônios cerebrais”.

Tentar acabar com o sofrimento psíquico manipulando secreções específicas do cérebro é uma alternativa bastante limitada e percebemos isso todos os dias quando lidamos com pacientes em uso crônico de psicotrópicos. Diante da complexidade do ser humano e da vida, mudar uma substância do cérebro não é algo que trará mudanças de vida. Por mais que se queira reduzir cada sujeito ao seu cérebro.

O mote dos anos 2000 foi a definição do indivíduo pelo seu cérebro, hoje verificamos que outros pensamentos surgem em oposição ao que comprovadamente não se sustenta.

A Psicanálise, por sua vez, desde Freud, sempre colocou em pauta os processos complexos de cada sujeito. Ela evidencia uma parte de nós a ser recusada insistentemente na contemporaneidade: o inconsciente.

Não somos definidos pela razão, mas pelo inconsciente. No lugar de planejamentos, cálculos, projetos e planos para que nada dê errado em nossas vidas, o que se sobressai é o imprevisto, seja ele da própria vida, mas também a imprevisibilidade desse outro lado de nós mesmos: por que fizemos determinada coisa? Por que não conseguimos seguir o que estava planejado? Por que diante de determinada situação repeti o que sabia não ser certo?

Para essas questões o inconsciente é nossa resposta e ele aparece também em nossos sintomas psíquicos, em nossas repetições, em nosso mal-estar inexplicável.

Para lidar com tudo isso é necessário decifrá-lo: quando o sintoma psíquico aparece sua mensagem é “decifra-me ou devoro-te” e esse enigma pode ter um final muito ruim ao seguir com as propostas da contemporaneidade estabelecidas pela medicação e receitas de como agir.

Quando manipulamos a química cerebral como se ela fosse responsável pelo sofrimento, produzimos uma modificação química e forçamos o corpo a trabalhar de outra forma, e infelizmente é assim que produzimos dependências químicas, mas apesar disso, o tratamento com remédios psiquiátricos tem pouca eficácia, sendo que em estudos científicos com grupos controle, seu efeito é muito parecido com o grupo que utiliza placebo, mas com várias desvantagens se o uso for prolongado.

Por outro lado, a Psicanálise oferece algo que não necessita de uma grande indústria lucrativa por traz: a fala. É a partir da fala que surge o inconsciente na análise com adultos, o inconsciente está presente nas palavras fora de contexto, nos equívocos, nos mal entendidos, nos chistes, e é o analista que atentamente fisga-o para que o analisando (paciente no uso popular, mas que de paciente não tem nada, uma vez que precisa trabalhar muito numa análise pessoal) possa abrir sua significação e reelaborar sua história.

A fala, algo que utilizamos a todo o tempo é justamente o meio para a decifração do nosso sintoma psíquico, para que se torne banal e possibilite que a vida prossiga. A fala pode ser corriqueira para nós, mas é raro alguém que faça a escuta do que importa.

O Amae Institute é um espaço de atendimento psicanalítico, formação e reflexão em Saúde Mental para brasileiros no Japão.

Realizamos atendimentos particulares por videoconferência.

Os valores das sessões de psicanálise são combinados caso a caso diretamente com o analista.

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