Trabalho de mulher no Japão: desigualdade salarial, empreendedorismo e depressão

O Japão é internacionalmente reconhecido como um dos países com maior desigualdade de gênero, embora alguns programas tenham sido desenvolvidos nos últimos anos essa discrepância ainda é bastante evidente. Mas, e para os estrangeiros que vivem no país? Por onde passa essa desigualdade e quais outros fatores influenciam no sofrimento psíquico?

 

Quando a imigração dos brasileiros foi iniciada em massa no Japão, na década de 1980, quem mais vinha para o país eram os homens, uma vez que se precisava de mão de obra braçal e os salários considerados elevados davam a perspectiva de um trabalho em curto período de tempo e retorno ao Brasil. Pouco tempo se passou para se perceber que muitas pessoas permaneciam mais tempo do que planejavam ou não voltavam para o país de origem. Naquele momento inicial não foram poucas as famílias separadas pelo trabalho no Japão, quando os homens deixavam no Brasil esposa e filhos.

Num segundo momento as famílias começaram a se reencontrar ou a imigrarem conjuntamente, vinham pais e filhos na expectativa de começarem uma nova vida e poderem usufruir de melhores condições financeiras que no Brasil, país de muitas turbulências econômicas. A mulher chegou ao país com funções já definidas: enquanto cabia ao homem trabalhar fora por muitas horas, a mulher trabalharia fora, mas também cuidaria dos filhos, da casa, do marido e nas horas de “folga” inventaria uma fonte de renda extra para compensar a desigualdade salarial das fábricas.

 

Trabalho no Japão para mulheres

Uma das justificativas usadas ainda hoje, embora ilegais, para explicar porque há diferença salarial[1] entre homens e mulheres é a questão do trabalho definido para mulher e trabalho para homens. Entende-se que mulheres estão mais aptas para desenvolver trabalhos leves, porém mais repetitivos, pois como “sexo frágil” não aguentariam o trabalho designado para os homens.

Pode parecer que o trabalho repetitivo e leve seja tranquilo de desempenhar, mas não é bem assim. São os trabalhos que mais provocam lesões por repetição e problemas articulares. Não é raro que trabalhadores fiquem incapacitados nessas condições. No entanto, quando os problemas aparecem uma carga duplamente pejorativa recai sobre as mulheres, pois, mesmo fazendo um trabalho “leve” não suportaram trabalhar nas fábricas. Situação em que muitas se questionam e se culpam, além de ficarem com poucas saídas, uma vez que são esses trabalhos disponíveis para elas.

Em algumas famílias com filhos pequenos há o combinado de que a mulher trabalhará o período comercial de 8 horas, sem fazer horas extras, nosso famoso teiji. Neste combinado familiar, a possibilidade de trabalhar 8 horas diárias é possível para que a mulher entre em seu segundo turno de trabalhos domésticos: pegar filhos na escola ou creche, fazer comida, arrumar a casa, preparar obentôs do dia seguinte, ajudar os filhos nas tarefas escolares, etc.

Notem que é comum falarmos “eu trabalho teiji”, como se 8 horas diárias ou entre 40 e 48 horas semanais fosse pouco tempo. Nesse esquema de grandes quantidades de horas extras que é o Japão, pode parecer que o trabalho teiji seja pouco, mas não é.

Se contabilizássemos o trabalho desenvolvido em casa, quanto seria a média de horas extras em trabalhos domésticos? Em torno de 4 horas, essa é a média para as brasileiras, mas trata-se de um trabalho invisível, menosprezado e desconsiderado.

A mulher é expropriada de seu trabalho em dobro (ou seria triplo?), primeiro por se considerar que deve ganhar menos por fazer um trabalho “leve”, segundo por ser considerada fraca e ganhar a “vantagem” de trabalhar “somente” teij”, como se fosse um favor, e terceiro por desempenhar um trabalho difícil, sem remuneração e sem reconhecimento social que é o trabalho doméstico.

Nessa conjuntura, a mulher ainda se cobra para poder ajudar financeiramente o marido, inventando bicos para amenizar a realidade material do trabalho precarizado, mas não sem antes dar um toque de glamour com o nome de “empreendedorismo” que acaba por mascarar o quanto de absurdo há nessa situação.

 

Empreendedorismo e culpa: qual a ligação?

O “empreendedorismo” como um nome bonito para os famosos “bicos” estabelece uma nova conexão dos indivíduos com seu trabalho: a partir do momento que ele é uma saída porque a renda familiar não é suficiente, ou seja, serve para complemento porque o trabalho oficial paga pouco, não é simplesmente uma “vontade de empreender”, mas uma necessidade material muito concreta. Quando chamamos nossa segunda opção de trabalho de empreendedorismo retiramos toda a carga política que deveria conter, sobrecarregando o indivíduo que fica isolado e entendendo que o fracasso ou o sucesso de seu empreendimento só depende dele.

Os “empreendimentos” são uma expressão da nossa sociedade e da forma como vamos perdendo nossa dimensão política, colocando a culpa em primeiro lugar. Se meu empreendimento deu certo é porque eu me esforcei, batalhei e mereci. Se meu empreendimento fracassou é porque eu não me esforcei o suficiente, porque não era boa o suficiente, a culpa é minha.

Não se trata somente de uma forma de pensar, mas de uma característica subjetiva de nossa época. Essa nova subjetividade já foi percebida há algum tempo, para quem estuda o assunto ela não é novidade e cada vez mais vem se intensificando. Estamos diante de um mundo que desconsidera totalmente as conjunturas político-econômicas para colocar no indivíduo toda a carga e isso não pode gerar boas coisas.

 

Sofrimento psíquico a partir da nova subjetividade

Esse panorama produz algo peculiar nos sujeitos, aqui no caso falamos das mulheres: o sofrimento psíquico ligado à culpa, que se diga de passagem já é bastante forte na cultura japonesa.

Para muitas mulheres é considerar que não são boas o suficiente, que devem fazer sempre mais, que não deveriam descansar, aproveitando ao máximo o tempo que tem para progredir seu negócio e sua vida.

Viver nessa cobrança, sem tempo para respirar e sem saber exatamente que caminho está trilhando, pois em vários momentos a vida parece caótica, gera um enorme sofrimento psíquico que pode aparecer de diversas maneiras, mas gostaríamos de frisar uma delas: a depressão.

 

Depressão

A depressão é o contraponto da aceleração, essa aceleração da nossa vivência temporal elucidada pela grande quantidade de coisas que fazemos durante o dia e no final dele pensamos: “não fiz nada hoje” ou ainda “não tive tempo de fazer isso, isso e isso”.

Ao mesmo tempo essa aceleração e imposição de fazer cada vez mais coisas nos tira a possibilidade de experienciar situações importantes, não conseguimos comemorar uma conquista porque temos que pensar o que virá em seguida, não percebemos coisas importantes que acontecem com o outro, pois estamos correndo para dar conta de nossas coisas.

Visto de determinada forma, a depressão é uma revolta inconsciente contra nossa forma de vida, imposta no mundo contemporâneo. Não é à toa que foi dos sintomas mais diagnosticados nas últimas décadas, uma verdadeira epidemia mundial sem causa definida, sem vetor, sem localização corporal, mas a expressão de que precisamos de outro tempo.

Por mais que se corra para dar conta de tudo que se impõe a vida continua sem sentido, fazemos tudo no automático e nos tratamos como máquinas, até que algo nos avise que não somos, nesse caso a depressão é a expressão maior que escancara que não é possível para o ser humano viver em aceleração contínua.

Neste cenário o pensamento de que cada um tem o que merece, que só não tem dinheiro quem não se esforça, que as pessoas são preguiçosas, que basta trabalhar para conseguir, entre  tantos outros exemplos que ouvimos diariamente, só mostram o quanto estamos mergulhados até a cabeça nessa ideologia de culpabilização, que em última análise beneficia uma exploração mais intensificada do trabalhador que agora não reclama e concorda que a culpa é sua.

 

 

 

 

 

 

[1] Sabemos que em vários lugares do Japão as leis de isonomia salarial são seguidas, no entanto, a desigualdade salarial ainda é realidade em diversas regiões, principalmente nas províncias mais rurais.

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