O que significa ter diagnóstico de estresse no Japão e quais estratégias de tratamento

Se você já foi ao médico no Japão e saiu da consulta com diagnóstico de estresse, mesmo não se sentindo estressado, saiba que isso é bastante corriqueiro, mas o que significa?

 

Muitas pessoas ao se sentirem mal fisicamente recorrem ao médico que depois da avaliação clínica define o diagnóstico como estresse. Para a surpresa dos brasileiros, que não estão acostumados ao diagnóstico, há a pergunta sobre o que isso significa, uma vez que podem não estar se sentindo sob pressão ou com sentimento de mal-estar psíquico.

A medicina no Japão tem alguns diferenciais quando comparamos com a medicina brasileira, e isso causa alguns estranhamentos entre os brasileiros no Japão. Estamos acostumados a passar em uma consulta médica e sair com diversos pedidos de exames. Por conta da organização do nosso sistema de saúde a realização desses exames pode demorar bastante tempo, sejam eles feitos pelo sistema público de saúde ou particular. Via de regra quando saímos das consultas com esses pedidos, nos sentimos acolhidos em nossas queixas e entendendo que o médico está interessado em saber o que temos. Não é raro ouvir a seguinte frase: “esse médico é mesmo bom, olha só a quantidade de exames que pediu”.

Aqui no Japão, quando vamos médico sentimos a diferença logo antes de entrar na consulta, pois a triagem inicial é feita com um profissional da enfermagem que colhe detalhes de nosso histórico médico, diga-se de passagem, isso é feito em muitos postos de saúde no Brasil, mas não na rede particular. Na consulta passamos por um exame clínico, feito pelo médico por observação e procedimentos que não usam os métodos laboratoriais ou exames de imagem.  Os exames laboratoriais são solicitados somente depois do exame clínico e se houver necessidade. No Brasil esse também deveria ser o procedimento, mas não é comum que o médico faça o exame clínico somente depois dos exames laboratoriais.

Outra diferença é que muitos exames são realizados no momento da consulta, como o caso do ultrassom ou exames de sangue e urina, com resultados muito rápidos, cerca de alguns minutos de espera.

Quando o médico não encontra nada conclusivo organicamente, geralmente dão o diagnóstico de estresse e aqui entra outra peculiaridade da medicina japonesa: sempre se considera a psicossomática. Essa palavra estranha nos remete ao aparecimento de fenômenos orgânicos originados por um sofrimento psíquico, ou seja, diante da ausência de justificativa orgânica para seus problemas físicos, se considera a causa psíquica.

No Japão há a percepção de que os problemas psicossomáticos são muito frequentes, principalmente quando falamos de problemas gastrointestinais, mas podem estar presentes em outros problemas de saúde.

Se por um lado há a consideração de questões psicossomáticas, por outro não há muitas estratégias oferecidas para lidar com isso. Muito frequentemente após o diagnóstico de estresse não há qualquer recomendação médica, isso porque a psicologia clínica não é tão comum quanto no Brasil. Há psicólogos japoneses, mas eles trabalham sobretudo em escolas e em serviços hospitalares especializados, como por exemplo na área oncológica. A psicologia clínica como conhecemos no Brasil é bastante tímida.

No entanto, nos últimos anos temos visto que o fato dos estrangeiros estarem cada vez mais integrando a comunidade japonesa facilitou o oferecimento de serviços como o de “counseling” (aconselhamento), que começam a ficar mais populares, principalmente em regiões como Tóquio.

O counseling é oferecido sem subsídio do governo, por isso, o paciente paga integralmente cada sessão, que segundo algumas referências na área o valor pode variar de 10,000 a 20,000 ienes cada consulta. No caso da comunidade brasileira, vemos que a realidade é outra. Existem organizações não governamentais (NPO) de apoio psicológico por valores considerados baixos, cerca de 3,500 ienes, além do oferecimento de sessões de psicologia de forma gratuita oferecida pelos consulados. Também existem alguns projetos de atendimento psicológico com valores médios de 5,000 a 6,000 ienes por sessão.

Portanto, se você já foi a um médico no Japão e saiu da consulta com diagnóstico de estresse, é necessário levar em consideração que esse diagnóstico não se refere ao estresse tal como conhecemos (preocupações em excesso, tensão, impaciência e nervosismo), mas se refere a fenômenos orgânicos provocados por questões psíquicas que são desconhecidas para aquele que sofre, e que, por isso, precisam ser desvendadas através de um processo de análise do sujeito, seja com um psicólogo, psicanalista ou counselor.

 

Nota: muitos psicólogos e psicanalistas trabalha com counseling no Japão, sendo este uma maneira de formalizar os serviços oferecidos.

O Amae Institute é um espaço de atendimento psicanalítico, formação e reflexão em Saúde Mental para brasileiros no Japão.

Realizamos atendimentos particulares por videoconferência.

Os valores das sessões de psicanálise são combinados caso a caso diretamente com o analista.

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