Freud no Japão

No último dia 06 de maio de 2021 comemoramos o aniversário de 165 anos do nascimento de Freud, o famoso pai da psicanálise. Embora Freud tenha falecido em 1939 a psicanálise continua viva e necessária em um mundo em que teimamos em localizar no cérebro os fenômenos que falam do sujeito dividido em consciente e inconsciente. O Japão tem uma história muito próxima da psicanálise, embora a clínica psicanalítica não seja tão expressiva como é no Brasil, essa história permanece desconhecida para a grande maioria dos brasileiros.

 

A história da psicanálise no Japão é traçada sob duas vertentes iniciais: uma relacionada a psiquiatria e outra à literatura e ciências humanas.

No caso da psiquiatria, uma forte influência alemã foi base para essa ciência médica no Japão, em parte pelo seu autoritarismo e hierarquia entre médico e paciente. Kiyoyasu Marui é considerado um dos pioneiros da psicanálise no país, ele se graduou na Universidade de Tóquio e ao invés de se dirigir à Alemanha, como muitos psiquiatras faziam, foi para os Estados Unidos. Entre 1916 e 1919 fez estágio com Adolf Meyer, fundador da psiquiatria dinâmica de forte influência psicanalítica. Mais tarde, em 1933, esteve na Europa e conheceu Freud. Ele obteve autorização do próprio Freud para instalar uma filial da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) no Japão, fundada em 1943. Porém, naquele momento já existia uma filial da IPA no Japão, fundada em 1930 por Kenji Otsuki e Yaekichi Yabe, também autorizadas por Freud. A diferença entre as duas associações era que os dois pioneiros da IPA de 1930 não eram médicos.

A justificativa de Marui na criação de uma segunda filial da IPA, estava no fato de que era necessário dar legitimidade à academia, já que os psicanalistas viviam marginalizados. Freud, por sua vez, compreende a dificuldade que era realidade em vários países, e concede estrategicamente a autorização aos dois grupos, interagindo cautelosamente com as duas filiais na intenção de difundir a psicanálise.

Curiosamente as duas filiais trabalharam em conjunto e pacificamente, inclusive traduzindo obras de Freud para o japonês, sem nunca haver brigas pelo monopólio dos direitos autorais.

A primeira filial da IPA , na cidade de Tóquio, fundada por Kenji Otsuki e Yaekichi Yabe estava ligada às ciências humanas, uma vez que Otsuki era formado em literatura e Yaekichi em psicologia. Em 1930 Yabe esteve na Alemanha, passou por formação, obteve seu certificado em psicanálise e conheceu Freud, ele também publicou a primeira revista psicanalítica do Japão, chamada Seishinbunseki, em 1933.

As duas escolas foram unidas em 1955, depois da morte de Marui. Nesse momento Taiei Miura apoia a iniciativa. Miura faz parte da segunda geração de psicanalistas, tendo feito sua formação em Viena, entre 1932 e 1933. Ele também conhece Freud e na ocasião apresenta um texto de sua autoria, intitulado “Duas espécies de sentimento de culpa”. Ao retornar ao Japão, abre uma clínica psicanalítica particular em Tóquio e se torna o primeiro médico psicanalista do país. Por esse motivo, Miura é conhecido como o pai da psicanálise japonesa.

Após a II Guerra Mundial, a segunda geração de psicanalistas é formada por nomes como Takeo Doi, da Universidade de Tokyo, Keigo Okonogi, da Universidade de Keio, e Masahisa Nishizono, da Univerdade de Kyushu, que também era membro da Filial Japonesa da IPA.

 

A constituição de uma psicanálise japonesa

Diferenças culturais e sociais estão na base de uma criação japonesa para a psicanálise, diante da justificativa de que a Europa era uma sociedade mais individualizada e democrática que o Japão, sendo que este, inclusive, carecida de horizontalidade entre médico e paciente, exigida pela psicanálise. Aqui, exemplificaremos rapidamente duas teorias importantes na construção de uma psicanálise japonesa:

  1. A proibição do olhar” de Kitayama: a partir de contos japoneses com o tema central do casamento entre humanos e não-humanos, Kitayama encontra padrões psicanalíticos japoneses. O conto da “esposa garça” é bastante representativo. O protagonista resgata um animal machucado (a garça) e uma mulher não-humana que disfarça sua verdadeira natureza e se casa com o homem. A linda esposa tece um corte de pano e o dá de presente ao marido, que enriquece vendendo-o. Ele pede mais do pano. A mulher o proíbe de olhar para ela enquanto ela tece, mas o marido viola a proibição e espia. O que o homem vê é a mulher, que se tornou uma garça arrancando suas próprias penas de seu corpo. A garça se sente profundamente envergonhada por seu verdadeiro eu [self] ter sido revelado e abandona o homem. Para Kitayama, a mulher responde ao “objeto passivo de amor” do homem, que horas se confunde com o amor de mãe pelo filho. O tema deste conto é descrito como aquele do sacrifício próprio e esforços da mãe, que excede seus limites para responder a demanda de amor do filho. Seu sacrifício próprio a prejudica e fere, enquanto ela satisfaz as demandas infindáveis da criança (ou do homem). Isto envergonha a figura materna por conta de suas feridas e sofrimento, e pode ser uma fonte de desilusão, vergonha e culpa para a criança (ou homem) insaciável. Kitayama diz que a ansiedade humilhada japonesa, ou o medo de ser olhado, é uma das razões pelas quais o paciente japonês tende a não ir à análise. Pacientes temem a intrusão, ou serem expostos e, então, deixam a análise sentindo-se humilhados e envergonhados. Pacientes não querem passar pela experiência psicanalítica, na qual podem se sentir maculados, machucados ou quererem desaparecer.

 

  1. O “Complexo de Ajase” de Kosawa: O complexo de Ajase é derivado do pensamento budista no Kanmuryojukyo. A esposa do rei, Idaike, temia que à medida que sua beleza desvanecesse, ela perderia o amor de seu marido e ela ansiava por ter um filho com o qual assegurar o amor do rei. Ela consultou um adivinho que lhe falou sobre um sábio que vivia na floresta e morreria dali a três anos, para renascer como seu filho. Contudo, Idaike estava ansiosa demais para esperar três anos e, por querer ter o filho o quanto antes, ela matou o sábio. Enquanto morria, o sábio amaldiçoou Idaike, dizendo-lhe que quando reencarnasse como seu filho, ele um dia mataria o rei. Idaike engravidou neste momento. Por medo da vingança, Idaike tentou matar seu filho, Ajase, dando à luz no topo de uma grande torre. Mas Ajase sobreviveu e teve uma infância feliz. Um dia, o segredo foi revelado por um inimigo do Buda e Ajase tentou matar a mãe. Contudo, em seguida, ele foi tomado pela culpa e desenvolveu uma severa doença de pele. Ninguém se aproximou dele por causa do forte odor, exceto sua mãe. Apesar da devoção de sua mãe, a ira de Ajase não se apaziguou. Idaike foi até o Buda e contou a ele sobre seu sofrimento. Os ensinamentos do Buda curaram seu conflito interno e ela voltou para continuar cuidando de Ajase. Eventualmente, Ajase foi curado e se tornou um respeitado regente. Kosawa discutiu a peculiaridade psicológica dos japoneses evidenciada pela aceitação da dependência oral em relação à mãe, a repressão do ressentimento com a mãe e “o sentimento de culpa por ser esquecido”, e a necessidade de compensar por ter nutrido esta intenção.

Além dessas duas contribuições consideramos que existe uma importante teoria em torno do temo “Amae”, desenvolvida por Takeo Doi e a polêmica contribuição de Jacques Lacan sobre a língua japonesa, a partir da incorporação dos caracteres chineses. Para esses temos reservaremos um espaço individual em futuros textos.

 

Referência:

KASHIMURA, Aiko. Japanese psychoanalysis as deciphering the Japanese unconsciousness and supporting the Japanese subject. In. ELLIOT, Anthony; KATAGIRI, Masataka; SAWAI, Atsushi (ed.). Routledge Companion to Contemporary Japanese Social Theory. Londres: Routledge, 2013, pp. 111-41. Tradução de Thiago Marques Leão.

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