Proposta Amae Institute de acompanhamento do autismo no Japão

Desde que o espectro autista foi ampliado pela última versão do DSM, o guia de diagnósticos da psiquiatria, cada vez mais crianças recebem essa denominação para seu mal-estar. Existem algumas abordagens que pretendem oferecer apoio ao autista e o Japão se caracteriza por reforçar o ganho de autonomia, no entanto, existem outros aspectos importantes para falarmos.

O que é o autismo?

Não existe um marcador biológico para o autismo, isso quer dizer que diferente de uma condição orgânica facilmente localizada, no autismo não há um “problema” localizado no cérebro, que identificado defina o diagnóstico. Na verdade, ele é um conjunto de fenômenos com foco no comportamento (na visão médica) que junto das características como idade e período em que surgem, assim como o tempo, levam a estabelecer a denominação hoje conhecida com Transtorno do Espectro Autista, ou simplesmente TEA.

Até hoje não sabemos por que o autismo se manifesta, mas sabemos que não há um causa única. Na visão da psicanálise, que busca entender a dinâmica psíquica e não apenas catalogar os fenômenos comportamentais, o autismo pode ser entendido como uma estrutura psíquica, mas isso não descarta que possa haver sofrimento para o bebê e para a criança.

No desenvolvimento psíquico do bebê quando nasce existe uma interação muito importante dele com a mãe, ou com quem faz o papel da maternagem. Essa interação é muito percebida pela olhar, mas também na fala tão peculiar da mãe com o bebê, essa fala cheia de manha e gracinhas com a qual nos dirigimos às crianças. Nossa forma tão peculiar e gostosa de nos dirigir às crianças tem a função de fisga-la na interação: é falando dessa forma que a criança nos olha, sorri, fica interessada.

Nessa dinâmica entre mãe/maternagem e bebê muita coisa vai acontecendo, a mãe passa a dar significado às ações do bebê, mesmo para aquelas que inicialmente parecem sem intenção, a todo momento a mãe vai narrando o que o bebê faz: “olha que bebê mais bonitinho, levantou os bracinhos porque quer a mamãe, quer um colinho bebê?”. É assim que vamos colocando o bebê no lugar de sujeito, dando significado para o que faz, é assim que ele adentra o simbólico.

À medida que a interação se desenrola e o bebê vai crescendo e entendendo esse novo mundo, ele também passa a interagir, ele não é somente um “pedaço de carne”, desde muito cedo o bebê é ativo nessa relação com a mãe e com o mundo. O momento crucial, em que ele demonstra que está de fato adentrando no mundo banal habitado por nós é quando ele passa a “se dar para a mãe”. A mãe brinca com o bebê e ele se dá a ela nessa brincadeira. Por exemplo: durante as trocas de fraldas a mãe brinca com o pezinho do bebê, diz que vai comer o pezinho de tão gostoso e o bebê dá o pezinho para a mãe, claro de maneira um tanto descoordenada às vezes, mas ele oferece seu pezinho para a mãe e se delicia com isso.

Esse momento nos mostra que um ciclo foi completo na estruturação psíquica e embora possa parecer um relato sem importância, ele é extremamente importante e complexo, trata-se da dinâmica pulsional do desejo entre a criança e o Outro.

No entanto no autismo isso tudo não acontece, ou acontece pela metade. Ao não chegar na terceira etapa pulsional e não se oferece ao Outro da maternagem, a criança fica confinada em si mesma. Mas por que isso acontece?

Como dissemos no início as causas são diversas, o que nos diz que o diagnóstico do autismo é produto de algo, explico melhor: não importa exatamente a causa, o autismo é a definição da não passagem pelos tempos psíquicos de estruturação no simbólico.

Isso pode parecer muito difícil, mas nos diz que o bebê não se estruturou psiquicamente como esperaríamos de um bebê “comum”.

 

Possíveis causas

Embora não tenhamos as respostas que as pessoas gostariam para o autismo, já sabemos bastante sobre ele. Como dissemos, o que causa o autismo é particular para cada criança, não há uma causa única, então, o que faz ser muito importante para os profissionais de saúde ouvir os pais atentamente e não banalizar a angústia daqueles que os procuram percebendo que algo não vai bem.

Um dos relatos mais frequentes que temos na clínica são mães que chegam com um filho já com diagnóstico fechado de autismo que dizem que percebiam que algo estava errado, mas que não foram levadas em consideração por médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, infelizmente.

Outra coisa que precisamos saber, e todos deveriam saber: o bebê se comunica à sua maneira, ele nos diz o que está passando com ele e ele também nos comunica quando está passando por um sofrimento.

Bebês também sofrem! Para a maioria das pessoas isso vai soar como novidade e pasmem, os profissionais de saúde também não sabem disso, ou agem como se isso não fosse relevante.

Um bebê em sofrimento não está aberto para as trocas psíquicas que relatamos no início do texto, ele não consegue interagir com a mãe e se estruturar quando está com dor ou em sofrimento psíquico. Então temos que ter isso em mente: 1) o bebê pode nascer com algum tipo de dor; 2) o bebê pode passar por algum tipo de sofrimento psíquico; 3) o bebê pode nascer com alguma patologia orgânica. Esses três fatores, peculiares para cada bebê, são comunicados por eles, mas o problema é que via de regra não sabemos decifrar o que ele nos comunica.

 

Intervenção Precoce

Se o bebê apresenta alguma circunstância de mal-estar (físico, psíquico) ele não estará disponível para a interação psíquica que o leva a se estruturar como sujeito. Ele se fechará em si mesmo e não entrará no mundo de interação com as outras pessoas (em maior ou menor grau). Essa circunstância pode levar ao autismo.

Geralmente, a recomendação é que se espere até a criança completar 3 anos de idade para se fechar o diagnóstico, no entanto, ao completar 3 anos nossas possibilidades de fazer algo pela criança ficam muito limitadas, uma vez que a estrutura psíquica já estará formada.

Pode ser que aqui estejamos trazendo mais uma novidade para você: Não se espera até 3 anos quando algo não está bem! Se a mãe ou quem é responsável pela maternagem tem a sensação de que algo não vai bem, o mínimo que podemos fazer é escutar e estarmos atentos a esse relato, os bons profissionais de saúde que trabalham com bebês sabem disso.

Muitas mães chegam à clínica falando: “eu percebia que algo não ia bem, mas todos diziam que eu estava louca”. Mas também existe um outro lado, aquelas mães que percebem algo diferente e se doam ao máximo para que seus bebês interajam com elas, mas sem sucesso, essa situação pode ser tão brutal para uma mãe que ela passa a ignorar a situação, ou seja, a falta de interação do bebê faz a mãe se defender do insuportável para ela, com a falta de interação dela com o bebê. São situações muito tristes que vemos no cotidiano e que poderiam ser no mínimo amenizadas se os profissionais de saúde estivessem capacitados para lidar com a primeira infância.

 

A Psicanálise de bebês

Em alguns lugares do mundo a abordagem da Psicanálise de bebês é mais presente que em outros. No Brasil, na França e na Argentina temos grupos muito fortes e presentes inclusive nos serviços públicos que percebem os bebês na sua formação psíquica. Em países como o Japão essa perspectiva não teve muita entrada, o que acaba por provocar um certo desamparo nos pais e ausência de apoio para o bebê.

Uma vez percebido que algo não vai bem com a criança é importante detectar se há algum problema orgânico, algo que esteja causando dor, ou problemas de audição ou visão. O trabalho no consultório do Psicanalista de bebês é em conjunto com a mãe ou o responsável pela maternagem e consistem em intensivos de interação com o bebê para que ele possa ser fisgado por essa fala particular que temos com os pequenininhos e, como um bebê comum, ele se encante com o que é oferecido e não se feche em si.

Quando o problema é percebido muito cedo, isso quer dizer a partir de 2 meses de idade mais ou menos, podemos fazer uma intervenção no tempo certo e o bebê não precisará se isolar do mundo para lidar com sua dor, ou seja, ele não se estruturará como um autista. Depois de 3 anos de idade isso não é mais possível.

 

Cannabis Medicinal

Desde que a cannabis pode se desvencilhar um pouco do preconceito que sofre e ser a grande promessa para questões de Saúde Mental, temas interligando a cannabis e o autismo são frequentes. Diversos relatos de famílias que tiveram grande melhora de seus filhos autistas, num processo de retirada de remédios psiquiátricos que dopavam as crianças, mas também relatando melhoras no desenvolvimento e diminuição da ansiedade e agressividade.

A cannabis é uma planta de ação terapêutica intensa que atua em todo o corpo, isso porque temos um sistema interno, chamado sistema endocanabinoide, que responde aos componentes da planta. Esse sistema é responsável pela coordenação dos demais sistemas do corpo.

No caso do autismo a cannabis pode atuar nas questões orgânicas, diminuindo inflamações, dores e desconfortos, mas também atua na modulação neuronal. No resumo, a cannabis faz o que nenhum remédio pode fazer, ajudar “corpomente” a reestabelecer um equilíbrio. Diante desse processo, a criança pode se abrir para as trocas psíquicas que tanto falamos nesse texto.

Aqui no Japão os produtos da cannabis são legalizados desde que não tenham THC, o que nos abre a possibilidade de utilizar produtos com todos os outros componentes da planta, que chamamos de broad spectrum ou espectro amplo, e que nessa junção produzem uma rica interação chamada efeito entourage ou efeito comitiva.

É na orientação e no acompanhamento desse óleo broad spectrum que trabalhamos, entendendo que o tratamento não acontece somente com o “treinamento” da criança, mas considerando o sofrimento que passa e as questões psíquicas.

Existem diversos relatos clínicos e artigos científicos que nos dão uma perspectiva muito boa na orientação da cannabis para o autismo, principalmente quando se trata de casos que envolvam as expressões do sofrimento através da agressividade, agitação, ansiedade e estereotipias.

Até o momento, não conhecemos médicos japoneses que trabalhem com a cannabis medicinal para crianças no Japão, embora no Brasil essa seja uma área em expansão. Apostamos na cannabis como mais uma estratégia, o que não descarta a manutenção das terapias com outros profissionais.

O Amae Institute é um espaço de atendimento psicanalítico, formação e reflexão em Saúde Mental para brasileiros no Japão.

Realizamos atendimentos particulares por videoconferência.

Os valores das sessões de psicanálise são combinados caso a caso diretamente com o analista.

Também realizamos orientações para o uso do CBD.

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