Afinal de contas o que é AMAE? O terceiro tempo pulsional a partir da teoria japonesa da psicanálise

O conceito que dá nome ao nosso instituto foi cunhado pelo psicanalista Takeo Doi e constitui um dos conceitos mais importantes de uma psicanálise japonesa.

 

Derivado da palavra “Amaeru”, que significa “depender e pressupor o amor do outro”, tem a mesma raiz de “Amai” que significa “doce”, remete ao jogo infantil para despertar o interesse do outro, no caso os cuidadores/pais. Takeo Doi, verificando essa característica não conseguiu traduzir em um modelo ocidental, mas aproximou da palavra “mimar”, ressaltando que não haveria nesse conceito conotação negativa, como pode as vezes estar incluído em “mimar”

“Eu acredito que a maior parte dos japoneses tem uma memória querida do sabor doce de depender de alguém quando criança e, consciente ou inconscientemente, carrega consigo uma perpétua nostalgia disto” (Doi, 1956).

 

Takeo Doi formulou este conceito após uma experiência pessoal quando viajou aos Estados Unidos para um estágio em 1950. Diante da frustração de não conseguir se comunicar em inglês, analisou seus afetos e formulou o conceito não somente como algo particular seu ou do povo japonês, ele acreditava na universalidade deste termo.

A partir de “Amae” Doi pode elaborar uma teoria pré-Edipiana que descreve o desejo de ser amado de forma ativa. Ou seja, em nossas palavras, Doi apresenta a posição ativa da criança em se fazer desejada pelo Outro. Isso nos interessa muito, uma vez que parece estarmos falando do terceiro tempo pulsional descrito por Freud e retomado por Lacan.

Então, para Doi “Amae” é o desejo de ser amado, estabelecido na relação dual criança-mãe. No entanto, esta marca inicial permanece no sujeito, de modo que as relações da idade adulta invocam “Amae”.

Se uma pessoa em uma relação amorosa conhece um desejo (desejo expresso pela vontade) de seu parceiro e responde a ele, o “Amae” não aparece, no entanto, se esse desejo não é respondido o “Amae” aparece em comportamento negativo, como ficar amuado, por exemplo. Seria o comportamento que tenta evocar no outro algo que responda a demanda do sujeito. Doi descreve esse mecanismo em seu livro “A anatomia da dependência”, de 1970 que se tornou best-seller.

Se por um lado, Doi acaba focando nos indivíduos adultos para exemplificar o que é “Amae” e a partir daí defender que ter consciência de seu próprio “Amae” seria o caminho do amadurecimento, gostaríamos de retornar ao momento inicial da formulação do termo, na relação mãe-bebê.

Na relação do bebê com a maternagem ele é fisgado pela voz gozosa que chamamos de lalíngua ou manhês, trata-se dessa voz que fazemos quando falamos com as crianças, voz melodiosa em excesso, que captura a atenção da criança e a deixa encantada. Em outro momento, podemos perceber que a criança não é somente passiva dessas trocas, mas ela também se delicia ao ver o prazer que desperta nesse outro materno e se expressa ativamente para isso, a criança se dá para o prazer do Outro, estamos falando do terceiro tempo pulsional, tão importante para a constituição psíquica das crianças, sem o qual as consequências podem ser drásticas, como nos mostram os autistas. A entrada no terceiro tempo pulsional depende de um “sim” do bebê aos encantos da voz, permitindo a entrada na linguagem através da alienação em lalíngua.

O curioso da formulação de Takeo Doi é que ele não tinha conhecimento dessa teoria e nem mesmo dos objetos pulsionais de Freud, aqueles objetos por meio dos quais se quer satisfazer a pulsão, marcados pelas características da história de cada um, mas com alguma especificidade a partir da obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.

A partir da nossa leitura da psicanálise e a concepção japonesa dela, marcando a necessidade do povo japonês em seu nacionalismo, mesmo frisando pela universalidade teórica, acreditamos que Amae possa ser entendido como a relação do sujeito com o Outro, definida na teoria psicanalítica do campo Freud-Lacan, aproximando o Japão da psicanálise de forma bastante precoce, ainda que hoje em dia ela não seja popular nos atendimentos clínicos.

O Amae Institute é um espaço de atendimento psicanalítico, formação e reflexão em Saúde Mental para brasileiros no Japão.

Realizamos atendimentos particulares por videoconferência.

Os valores das sessões de psicanálise são combinados caso a caso diretamente com o analista.

Também realizamos orientações para o uso do CBD.

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