A Saúde Mental dos brasileiros na explosão de Covid no Japão

As Olimpíadas terminaram e começaram as Paraolimpíadas, com elas uma explosão de casos de Covid com exemplos de negligencias que esperávamos ouvir do terceiro mundo de onde viemos: recusa de atendimento médico, gente morrendo em casa e falta de leitos. Para casos leves de Covid a indicação é ficar em casa, sem acompanhamento médico. Como esse panorama se reflete na nossa Saúde Mental?

 

Este artigo é um desdobramento da entrevista que demos para Folha de SP para contribuir no artigo “Às vésperas da paraolimpíada, Japão tem recorde de casos de Covid e falta de leitos”.

Nos últimos dias as notícias de recordes de casos diários de Covid no Japão têm aparecido constantemente nos noticiários, com eles uma série de acontecimentos que reforçam que estamos sozinhos na Pandemia e que nem sempre teremos uma instituição médica para nos assegurar que tudo correrá bem.

Desde o início da pandemia relatos de pessoas que não conseguiram atendimento médico porque foram recusadas pelos hospitais são lançados nas redes sociais, mas a situação tem piorado e a última notícia alarmante foi de uma mulher japonesa grávida, com sintomas leves de Covid, que deu à luz em casa a um bebê prematuro, porque nenhum hospital quis acolhê-la, o bebê não sobreviveu.

Essa situação escancarou para nós brasileiros que embora os hospitais e clínicas japonesas não sejam caóticos como o sistema de Saúde brasileiro, eles podem recusar atendimento, ao contrário do Brasil. No nosso país, por mais que o hospital esteja lotado, por mais que não haja vaga o atendimento nunca é recusado, porque todo cidadão tem direito ao atendimento médico. No Japão a situação se inverte: por mais que o hospital tenha leitos, se as vagas destinadas para o COVID estiverem completas ou se a equipe se sentir insegura em atender novos casos, eles podem negar  apoio em saúde.

Essa situação pode parecer muito estranha para nós brasileiros, acostumados a precariedade e com o imaginário povoado de maravilhas do primeiro mundo. Se deparar com essas situações de recusa de atendimento médico num momento crítico nos deixa em choque, mas também escancara e intensifica outras questões.

O sistema de Saúde

O sistema de saúde pública não gratuita japonês é organizado a partir da vinculação de clínicas particulares a uma rede subsidiada pelo governo, diferente do Brasil, que conta com instituições públicas, funcionários públicos, mas também com serviços terceirizados para complementar a rede pública. Se no Brasil o público segue as diretrizes dos governos para a organização do trabalho (municípios e estado), no Japão cada clínica tem autonomia para organizar seu trabalho da melhor maneira, elas são como “colaboradores” do governo e não estão diretamente submetidas a ele em suas práticas do dia a dia, embora sigam as diretrizes da saúde coletiva. Isso na prática quer dizer que há uma série de princípios da saúde a serem seguidos, mas o cotidiano de cada estabelecimento é de responsabilidade do próprio estabelecimento. Por esse motivo, se um hospital diz que só atenderá 10 casos de covid, porque é esse o número que se sente apto para atender, embora seja um hospital de grande porte, será esse o número de atendimentos feitos, mesmo que alguém esteja a beira da morte e tenha que morrer em casa, como tem acontecido.

É por esse motivo que mesmo agora se você for até um hospital no Japão não encontrará os hospitais lotados, com pessoas alocadas nos corredores ou enfermarias como é comum no Brasil, os hospitais e clínicas continuam calmos aparentemente, talvez com um pouco mais de movimentação como de costume, mas não estão caóticos.

Então nosso estranhamento se dá na recusa: como é possível o hospital ter espaço para atender alguém e não atender? Essa é a inflexibilidade japonesa, aqui não há jeitinho para o bem ou para o mal, se são 10 vagas, não é possível acolher 11 pessoas. No entanto, pagamos com a morte.

 

Olimpíadas e Paraolimpíadas

O primeiro ministro do Japão, Yoshihide Suga, ascendeu ao cargo com a missão de fazer as Olimpíadas se concretizarem. Mesmo diante de vários conselhos técnicos de especialistas dizendo que as Olimpíadas deveriam ser canceladas diante das chances de um aumento dos casos e mortes pelo Covid, o primeiro ministro foi bastante enfático quanto ao acontecimento do evento esportivo.

Respondendo à demanda do mercado que já havia investido milhões de dólares para o acontecimento, além dos empresários que esperavam recuperar algo diante do fechamento de bares, restaurantes e hotéis. Suga preferiu responder a demanda do mercado ao invés da demanda da população.

Ao mesmo tempo, os relatos de brasileiros que trabalham em fábricas que cada vez contabilizam mais casos e só tem a produção interrompida quando a situação já saiu do controle, torna-se cotidiano. A falta de transparência sobre os casos nas fábricas tenta encobrir uma verdade de que o importante é a produção e não o trabalhador.

A mensagem institucional que nos chega é a de que a vida está em segundo lugar no país em que a produção não pode parar, custe o que custar, custe as vidas que custar.

 

Como fica nossa Saúde Mental?

Antes da Pandemia e das Olimpíadas já não estávamos bem, ano após ano batemos incessantemente recordes de vendas de remédios psiquiátricos. Vivemos em meio a uma epidemia de sofrimento psíquico que se manifesta de diversas formas com muitos diagnósticos.

Reduzimos a existência humana a um livro de sintomas e medicações, o DSM (livro de diagnósticos da psiquiatria) e estamos cada vez mais empobrecendo nossa percepção sobre a humanidade, focando excessivamente nas ligações neuronais. Nosso padrão de tratamento descarta toda a experiência de vida de uma pessoa para dizer que o problema está em substâncias muito particulares produzidas pelo cérebro. No entanto, depois de mais de 5 décadas de tratamentos medicamentosos como padrão, vemos que eles não melhoraram nossa condição no mundo.

Na peculiaridade da vida humana temos que viver com um mal-estar, ao qual nossa sociedade econômica atual oferece uma série de bugigangas consumíveis com a promessa de nos trazer felicidade. Os excessos da nossa vida não são em vão, eles têm um propósito muito bem definido: preencher nosso vazio, nossa falta, mas justamente esse lugar não é preenchível.

Você já quis muito comprar uma coisa, algo caro que parecia importante pra você e quando comprou o encanto se desfez? É assim que funciona e por isso que consumimos tanto. Acreditamos que o acesso a determinados objetos de consumo nos fará diferentes. Aí está a roda do capitalismo que tanto produz para que possamos consumir no mesmo nível.

Nossa produção industrial é tão absurda que por conta dela estamos acabando com o planeta e diante de nossa degradação vírus como do Corona aparecem, escancarando que não há possibilidade de viver nesse mundo dos excessos. Nosso limite que não veio por bem, virá por mal. Se não conseguimos mudar nossa forma de viver em breve, teremos que mudar quando a situação estiver insuportável para todos do planeta, neste momento provavelmente será tarde demais.

Diante dessa situação demasiadamente complexa e distópica, nossa sensação de Desamparo se intensifica: estamos destruindo o planeta e nada pode brecar essa situação, o vírus mutante provocando um aumento exponencial dos casos, o fato de não sabermos quem o vírus irá contaminar, a iminência de perdermos alguém querido, a ausência de suporte médico, o conhecimento de que pessoas estão morrendo em casa, a demora das vacinas no país e assim por diante. Tudo isso nos provoca uma incrível sensação de impotência e de que estamos sozinhos.

É neste cenário que muitos brasileiros têm feito o caminho de volta pra casa, mesmo sabendo que o Brasil passa por uma de suas piores crises político-econômicas, com alta de desemprego e falta de esperança no futuro. Nos parece que a tentativa é de ter por perto a família, amigos e o lugar de referência simbólica para se manter no mundo em que a Saúde Mental já não é pertencente a ninguém.

O Amae Institute é um espaço de atendimento psicanalítico, formação e reflexão em Saúde Mental para brasileiros no Japão.

Realizamos atendimentos particulares por videoconferência.

Os valores das sessões de psicanálise são combinados caso a caso diretamente com o analista.

Também realizamos orientações para o uso do CBD.

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